O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e a Receita Federal deflagraram, na manhã desta quinta-feira (24), a Operação Crédito Oculto, desdobramento da Operação Carbono Oculto. A ação investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro que teria sido estruturado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para ampliar sua atuação no setor de combustíveis.

Entre os alvos da operação estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial, e o empresário Antônio Carlos Freixo Junior, proprietário da Entre Investimentos. Segundo as autoridades, o grupo investigado teria participado de operações financeiras utilizadas para ocultar a origem de recursos.

Ao todo, são cumpridos mandados em 29 endereços ligados a 13 pessoas físicas e 24 empresas. As ordens judiciais são executadas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo.

Investigação aponta aquisição de distribuidora

De acordo com o Ministério Público e decisões judiciais relacionadas ao caso, Humberto Tupinambá e seus irmãos, André e Bruno Tupinambá, teriam atuado em conjunto com integrantes apontados como lideranças do PCC na estruturação de um projeto para aquisição da distribuidora de combustíveis Terrana.

Já Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”, é apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e proprietário do Banco Master.

Freixo firmou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Segundo as investigações, uma empresa ligada a ele teria sido utilizada para viabilizar repasses financeiros relacionados à produção do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Como funcionaria o esquema

As investigações apontam duas etapas principais de ocultação e lavagem de dinheiro.

Uma delas envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios relacionados à Usina Itajobi, no interior de São Paulo. Segundo o Ministério Público, a estrutura financeira teria utilizado fundos de investimento para dificultar a identificação dos responsáveis pelos recursos.

Para viabilizar a aquisição da Terrana, a investigação aponta que R$ 100 milhões foram movimentados para contas da usina. O dinheiro teria passado rapidamente por diferentes contas, chamadas de “contas bolsão”, mantidas em fintechs e relacionadas a empresas e distribuidoras investigadas.

Posteriormente, os recursos teriam sido aplicados no Fundo Radford, no qual a Usina Itajobi figurava como única cotista.

Segundo o MP, o dinheiro foi então utilizado em uma estrutura que envolveu o Banco Genial. Aproximadamente R$ 100 milhões teriam sido aplicados em certificados emitidos pelo banco, servindo de lastro para empréstimos concedidos a duas empresas recém-criadas: Berna Holdings Ltda. e Branson Holdings Ltda.

As duas empresas teriam utilizado os recursos para adquirir 100% das cotas da distribuidora Terrana (Tramp Oil) e do Fundo Derby 44, estrutura que, segundo os investigadores, teria sido utilizada para proteger patrimônio imobiliário atribuído à organização criminosa.

Para o Ministério Público, a operação teria criado uma estrutura circular, na qual os recursos utilizados nos empréstimos seriam, na realidade, valores pertencentes ao próprio grupo investigado e anteriormente depositados no fundo.

Movimentação de bilhões

Ainda segundo a investigação, a Entre Investimentos teria realizado um aporte de R$ 20 milhões em uma conta aberta pela usina em uma fintech. O valor teria sido transferido no mesmo dia para o Fundo Radford.

A estrutura financeira utilizada nas operações teria movimentado aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.

De acordo com o Ministério Público, o volume de recursos, analisado em conjunto com outras evidências, reforça os indícios de possível ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e lavagem de capitais.

Banco Genial se manifesta

Em nota, o Banco Genial afirmou que Humberto Tupinambá não faz mais parte da instituição e não é seu sócio desde maio de 2026.

O banco declarou ainda que forneceu às autoridades informações relacionadas às operações investigadas e comunicou as movimentações consideradas necessárias ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

A instituição também informou ter adotado medidas internas de governança e controle, incluindo a abertura de investigação interna, revisão dos procedimentos relacionados às operações de crédito e o afastamento de Tupinambá dos processos decisórios, seguido de sua destituição.

A defesa de Antônio Carlos Freixo Junior informou que não irá se manifestar.

A CNN Brasil informou que procurou a Entre Investimentos e tenta localizar a defesa dos demais citados. O espaço permanece aberto para novas manifestações.