Enquanto o país inteiro assistia famílias se afundando em dívida por causa do vício em apostas online, o governo não estava do lado de fora observando — estava faturando. Regulamentou o setor, cobrou imposto, e chegou a defender publicamente elevar a alíquota de 12% para 18% sobre o faturamento das bets. Cada aposta perdida por um pai de família endividado também engordava a arrecadação de Brasília. O Estado não foi vítima desse mercado: foi sócio dele.

E só agora, quando as pesquisas começam a doer e a eleição bate na porta, surge a Medida Provisória "salvadora". Só que aí mora a covardia do gesto: a MP mira cassino virtual — o pedaço mais fácil de atacar — e deixa de fora justamente as bets esportivas e os patrocínios a clubes, que são o motor real do endividamento que o próprio governo diz combater. Não é combate ao vício. É maquiagem de campanha, calculada para render manchete sem afetar quem paga a conta política das bets: os próprios aliados patrocinados por elas.

E o pior é que isso não é acidente, é método. Foi assim com a taxa da blusinha: enfiada como jabuti dentro de outra lei, sancionada pelo próprio Lula em 2024, e revogada por ele mesmo — coincidentemente cinco meses antes da eleição, depois de pesquisas apontarem a cobrança como o maior erro do mandato. Criou a dor, esperou o povo gritar, e apareceu de capa e espada para "resolver" o problema que carimbou com a própria caneta.

Foi assim com o Bolsa Família também. Em pleno ano eleitoral, com desemprego em mínima histórica e a economia oficialmente "bombando" segundo o próprio governo, mesmo assim 690 mil famílias novas entraram no programa — e, semanas depois, veio o reajuste de 15% no valor do benefício. Que coincidência: justo quando as urnas se aproximam, o dinheiro público encontra uma generosidade que a inflação sozinha não explica.

Não é gestão. É teatro eleitoral bem ensaiado, com orçamento público bancando o cenário. O brasileiro que se ferrou pagando taxa de importação, apostando o salário em bet patrocinada por artista pago pelo governo, ou vendo o Bolsa Família inflar artificialmente às vésperas do voto — esse brasileiro devia se perguntar: quantas vezes ainda vai aplaudir o incêndio sendo vendido como resgate?

Contraponto, pra não virar munição fácil de desmontar: o governo argumenta que a MP das bets mira o segmento que considera mais nocivo (cassinos virtuais), não o setor inteiro, e responsabiliza a falta de regulação nos governos Temer e Bolsonaro pela origem do problema. No Bolsa Família, defende que o reajuste apenas repõe a inflação acumulada desde 2023 e que a expansão de beneficiários reflete atualização cadastral, não inchaço eleitoreiro. Se o texto circular sem esse contraponto, vira propaganda fácil de furar — com ele, fica munição mais difícil de rebater.